• Cine Cult

    O Projeto Cine Cult é fruto de uma parceria firmada entre a Cine Vídeo e Educação-Ações Culturais e a Rede Cinemark que tem como objetivo oferecer aos espectadores a possibilidade de entrar em contato com filmes que normalmente não são contemplados pelo circuito comercial de cinema, permancendo restritos a pequenos exibidores. O Cine Cult oferece ao público uma sessão diferenciada, exibindo filmes de diversas cinematografias, além do cinema nacional de ficção mais autoral e documental. Diariamente, às 15h10 – incluindo sábados, domingos e feriados - o espectador pode assistir a nossa programação pagando R$ 7 (inteira) e R$ 3,50 (meia) pelo ingresso.

A propósito de um filme – 7 anos

 

 

Eu sei como pisar no coração de uma mulher

Eu sei como pisar no coração de uma mulher

 

Rian Santos

riansantos@uol.com.br

 

Deixe eu me defender, antes que algum gaiato se adiante. Não, eu não sou crítico de cinema. De acordo com o meu chefe, em termos objetivos, o que eu faço não é nem jornalismo. Eu poderia até citar dois ou três nomes consagrados no mundo inteiro que me ajudaram a definir um estilo, mas como não gastei a bunda no banco duro da universidade para copiar release, aquiesço de cabeça baixa e aceito a sentença tranquilamente. De qualquer modo, seja qual for a natureza de meu trabalho, é ela que me permite desperdiçar algumas linhas com um filme que não vai mais ser exibido. Não entendo nada de cinema, não me atenho às pautas caras ao jornalismo, mas a respeito do sentimento que perpassa os noventa minutos de “7 anos” (7 ans; França, 2007), a bela estréia do iniciante diretor francês Jean-Pascal Hattu, posso formular meu próprio juízo.

 

“7 anos” pode ser definido como o encontro de Maité, Vincent e Jean, protagonistas do filme. Maïté é casada com Vincent, que acaba de ser condenado a sete anos de prisão. Duas vezes por semana, ela pega a roupa suja, lava, passa e leva de volta à cela do marido. Um ritual que executa com afinco e precisão. Um dia, ao sair do presídio, ela conhece Jean, que a seduz, e os dois se tornam amantes.

 

Reduzir o filme a tão pouco, no entanto, seria como tomar emprestadas as palavras do sobrinho de Maité, um garoto curioso, que dedica um estranho afeto ás caixas de fósforo. “Quando eu estou dormindo, não escuto nada. É como se eu estivesse surdo”.

 

Íntimo da Dona Insônia, não consegui tapar os ouvidos em nenhum momento da projeção. Para mim, “7 anos” trata do poder que delegamos aos que mais amamos, únicos seres capazes de nos ferir profundamente. Jean adora os cigarros, e fuma compulsivamente. Maité ama Vincent, e permite que, mesmo trancafiado, ele maneje as peças de um jogo obsceno, sob pena de seu próprio aniquilamento. Eu gosto de escrever, e estrago minha saúde deitando palavras inúteis sobre o papel.  Todos os cabelos brancos antes do final da página.Mas qualquer dia eu tiro umas férias de minhas inclinações, e descanso meu corpo cansado numa sala com ar-condicionado. Alugo minha pena por trinta dinheiros, e empenho a minha consciência no banco, como fazem os jornalistas de verdade.

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